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CULTURA
NA eSTRADA

Ilha do Mel

Entre pescadores, histórias e marés

A primeira vez que fui à Ilha do Mel, há muitos anos, fiquei encantada com aquela paisagem ainda pouco tocada pelo turismo e pelo movimento de visitantes. Era um território de pescadores, com casas esparsas, histórias guardadas pelo tempo e uma natureza exuberante que parecia abraçar e proteger aqueles que ali viviam.

Naquela época, a Ilha era um lugar isolado e de difícil acesso. Chegava-se por Pontal do Sul, geralmente alugando uma embarcação dos pescadores locais — uma baleeira a motor — ou por Paranaguá, num percurso mais longo e também mais caro.

Aquele encantamento de quem olha pela primeira vez acabou me acompanhando. Alguns anos depois, escolhi a Ilha do Mel como objeto de estudo na minha graduação em Ciências Sociais, em 1984, na PUC/SP. A pesquisa abordava “A influência do turismo na organização social da atividade pesqueira na Prainha”.

A pesquisa foi construída a partir de dados colhidos na própria Ilha, em conversas e entrevistas com pescadores e seus familiares, além de informações obtidas junto aos órgãos competentes de Paranaguá.

Ao final, foi possível perceber que, embora o turismo fosse um dos fatores responsáveis por abrir um novo universo de possibilidades para os moradores locais, ele também contribuía para legitimar e acelerar mudanças que já vinham chegando ao cotidiano por meio dos meios de comunicação de massa.

Essas transformações apareciam em diferentes aspectos da vida: na linguagem, nas vestimentas, nos hábitos e, principalmente, nas formas de subsistência. A Ilha começava, assim, a experimentar uma nova relação entre o seu modo de vida tradicional e as mudanças trazidas pelo contato cada vez maior com o mundo de fora.

Talvez por isso, revisitar hoje aquelas lembranças tenha um significado especial. A Ilha que conheci pela primeira vez não era apenas uma paisagem bonita e quase intocada. Era também um lugar de vidas, histórias, saberes e relações que estavam começando a se transformar diante dos meus olhos.​

A Ilha do Mel está localizada no litoral do Paraná, na Baía de Paranaguá, uma região formada pelo conjunto das baías de Paranaguá, Antonina e Laranjeiras. Historicamente, a atividade portuária ocupa um papel central na economia regional, tendo o Porto de Paranaguá como um de seus principais símbolos e motores econômicos.

 

Na época em que realizei a pesquisa, a pesca era a principal atividade econômica da Ilha do Mel. Apesar de sua importância para a vida e a sobrevivência das comunidades locais, a atividade pesqueira nunca chegou a ocupar um lugar de destaque na economia do Estado do Paraná. Sua importância estava, sobretudo, no cotidiano das populações que viviam nas ilhas, praias e baías do litoral paranaense, garantindo alimento, trabalho e sustento para muitas famílias.

Mais do que uma atividade econômica, a pesca fazia parte

do modo de vida dessas comunidades, de suas relações,

de seus saberes e de uma forma de viver profundamente

ligada ao mar e à natureza.

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A Ilha do Mel hoje - Como chegar

Quarenta anos depois da pesquisa que realizei na Ilha do Mel, em 1984, muita coisa mudou. A pequena ilha de pescadores que encontrei naquela época transformou-se em um dos principais destinos turísticos do Paraná, que pude constatar na minha última viagem à Ilha neste ano (2026). O que antes era um lugar de acesso difícil e marcado pelo cotidiano das comunidades pesqueiras passou a receber um fluxo significativo de visitantes, especialmente durante os períodos de maior movimento turístico.

O acesso, no entanto, continua sendo feito por barco, a partir de Pontal do Sul ou de Paranaguá, e dentro da Ilha permanecem proibidos os veículos motorizados, mantendo-se o deslocamento a pé ou de bicicleta.

Clique aqui e acesse mais informações sobre a Ilha, os principais atrativos, 

a biodiversidade, e orientações específicas e gerais para os visitantes.

A Ilha abriga hoje duas importantes unidades de conservação — o Parque Estadual da Ilha do Mel, criado em 2002, e a Estação Ecológica da Ilha do Mel, criada em 1982 — que protegem áreas de Mata Atlântica, restingas e outros ecossistemas costeiros.

Ao mesmo tempo em que o turismo se consolidou, aumentaram também os desafios relacionados à ocupação do território, ao saneamento, à circulação de visitantes e à preservação da natureza. Em 2025, um novo marco regulatório passou a estabelecer regras específicas para a ocupação, a proteção ambiental, o turismo sustentável e a garantia dos direitos das comunidades tradicionais.

Unidades de Conservação

Em 2025 foi estabelecido um novo marco regulatório, por meio da Lei Estadual nº 22.315/2025, que passou a tratar a Ilha do Mel como uma área especial de interesse ambiental e turístico. A legislação busca conciliar preservação ambiental, turismo, ocupação territorial e os direitos das comunidades tradicionais. 

O controle do turismo e da capacidade de visitação tornou-se uma questão central. O governo anunciou a implantação de um sistema de controle de acesso, previsto para entrar em vigor em 2026, justamente para compatibilizar o fluxo turístico com a capacidade ambiental e a infraestrutura da Ilha. 

O Parque Estadual da Ilha do Mel tem atualmente capacidade de visitação indicada pelo IAT - Instituto Água e Terra de até 5.000 pessoas por dia, mostrando como a questão da capacidade de suporte passou a fazer parte da gestão contemporânea da Ilha. 

A implantação de novas estruturas de gestão, o controle de acesso de visitantes e os investimentos em saneamento mostram que a Ilha vive hoje uma nova etapa. A preocupação já não é apenas com a chegada do turismo, como acontecia na época da minha pesquisa, mas com a necessidade de encontrar um equilíbrio entre turismo, conservação ambiental, infraestrutura e permanência das comunidades que construíram sua história naquele território.

É interessante perceber, olhando para trás, que algumas das questões que apareciam de forma ainda incipiente naquela pesquisa continuam presentes. A diferença é que o turismo, que naquele momento começava a abrir um novo universo para os moradores, tornou-se hoje uma das principais forças de transformação da Ilha. E, junto com ele, permanece o desafio de preservar não apenas a natureza, mas também os modos de vida, as histórias e as memórias daqueles que sempre fizeram da Ilha do Mel o seu lugar.

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