CULTURA
NA eSTRADA

Cusco
Peru
Onde os Andes Contam Histórias
Cusco, ou Qosqo, em quéchua, significa “umbigo do mundo” e está localizada no sudeste do Peru, no Vale do Huatanay, em meio à Cordilheira dos Andes. A cerca de 3.400 metros de altitude, a cidade foi a capital do Tahuantinsuyo, o poderoso Império Inca, que chegou a se estender por uma vasta região da América do Sul, do litoral do Pacífico até os Andes. Pela sua enorme importância histórica e cultural, Cusco foi declarada Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO em 1983.
A origem de Cusco está cercada de mitos e histórias que ajudam a entender a riqueza da cultura inca. Segundo o cronista Inca Garcilaso de la Vega, o Deus Sol, Inti, fez surgir das águas do Lago Titicaca Manco Cápac e Mama Ocllo, considerados os fundadores do povo inca. Inti teria dado a Manco Cápac um cetro de ouro e orientado o casal a procurar o lugar onde deveria ser fundado o novo império. Eles seguiram viagem até chegar à colina de Huanacauri, onde o cetro finalmente penetrou no solo. Ali teria sido escolhido o local para a fundação de Cusco, dando início à história dos Incas, por volta dos séculos XI ou XII.
Muitos anos depois, durante o governo do Inca Pachacútec, que Cusco ganhou a grandiosidade que conhecemos hoje. Considerado por muitos historiadores e antropólogos o verdadeiro fundador e grande responsável pela expansão do Império Inca, Pachacútec transformou a cidade na capital de um dos maiores impérios da América pré-colombiana. Ao lado de seu filho, Túpac Yupanqui, ampliou os territórios conquistados e organizou um vasto sistema político, econômico e administrativo.


Para os Incas, Cusco não era apenas uma cidade: era um espaço sagrado. Toda a capital e seus arredores eram marcados por huacas, palavra em quéchua usada para designar lugares, objetos ou elementos considerados sagrados. Esses locais tinham grande importância religiosa e estavam profundamente ligados à vida cotidiana, às crenças e à organização da sociedade inca.
Ao caminhar por Cusco e seus arredores, é possível encontrar diversos desses antigos santuários e centros cerimoniais. Entre os mais impressionantes estão Q’enko, associado a observações astronômicas e rituais; Sacsayhuamán, com suas enormes pedras cuidadosamente encaixadas e uma das construções mais impressionantes do período inca; e Ollantaytambo, um antigo centro religioso, militar e agrícola que preserva importantes vestígios da engenharia e da arquitetura inca.
Visitar esses lugares ajuda a perceber que, para os Incas, a paisagem também fazia parte da sua espiritualidade. Montanhas, fontes, rochas, templos e caminhos não eram vistos apenas como elementos da natureza ou construções, mas como espaços carregados de significado e que faziam parte de uma relação muito particular entre o homem, a natureza e o mundo espiritual.

apresentação de
grupos indígenas de Ollantaytambo

Como chegar
No meu roteiro, cheguei a Cusco partindo de Nasca, em uma viagem de ônibus com a empresa Cruz del Sur. Os horários disponíveis são, em geral, noturnos, e o percurso leva aproximadamente 16 horas. Apesar de ser uma viagem longa, o ônibus é bastante confortável e a experiência acaba sendo interessante, principalmente porque, ao amanhecer, o trajeto revela paisagens belíssimas da Cordilheira dos Andes. A estrada é bastante sinuosa, mas justamente essas curvas proporcionam diferentes cenários ao longo da viagem.
Para quem prefere ganhar tempo, outra opção é fazer o trajeto de avião, chegando ou partindo pelo Aeroporto Internacional Alejandro Valasco Astete, que atende Cusco e recebe voos de outras cidades do Peru. Essa alternativa é especialmente interessante para quem dispõe de poucos dias no roteiro ou não quer enfrentar muitas horas de viagem terrestre.
No meu caso, optei pelo ônibus porque, além de ser uma alternativa prática, a própria viagem fazia parte da experiência. Em uma viagem pelo Peru, as distâncias são grandes e os deslocamentos podem ser uma oportunidade de conhecer melhor as paisagens e a diversidade geográfica do país.


Da região central de Cusco partiam os famosos Caminhos Incas, uma impressionante rede de estradas que chegou a alcançar aproximadamente 40 mil quilômetros, conectando diferentes partes do império. Por esses caminhos circulavam pessoas, mercadorias, informações e os mensageiros do imperador. Era uma verdadeira rede de comunicação que ajudava a manter unido um território enorme e geograficamente desafiador.
Com a chegada dos espanhóis, em 1532, esse cenário começou a mudar. Francisco Pizarro e seus homens invadiram Cusco e saquearam a cidade, dando início a um processo de destruição e transformação da antiga capital inca. Muitos edifícios e templos foram demolidos, e suas pedras foram reutilizadas na construção de igrejas, conventos e edifícios coloniais. Assim, a cidade espanhola foi sendo construída sobre as estruturas da antiga Cusco inca.
Um dos exemplos mais impressionantes dessa sobreposição de culturas está no Korikancha, o Templo do Sol. Após a conquista, os espanhóis construíram sobre suas estruturas o convento dos padres dominicanos. Séculos depois, o terremoto de 1950 provocou grandes danos nas construções coloniais e acabou revelando, de maneira impressionante, a resistência das antigas estruturas incas. Enquanto parte da construção colonial desabou, as paredes de pedra do Korikancha permaneceram praticamente intactas.

Catedral na Plaza de Armas

Cusco: uma cidade onde a história permanece viva
O que mais chama a atenção nessa história é a capacidade dos Incas de aprender com os povos que já viviam na região e incorporar seus conhecimentos. Aproveitaram técnicas de ourivesaria do norte, conhecimentos de arquitetura das populações costeiras, práticas de agricultura e pecuária do altiplano e redes de comércio do sul. Essa troca de conhecimentos ajudou os Incas a construir uma sociedade organizada e um sistema administrativo capaz de controlar um território enorme e muito diverso.
No seu período de maior expansão, o Tahuantinsuyu ocupava grande parte da América do Sul, abrangendo o atual Peru e alcançando áreas que hoje pertencem ao Equador, Colômbia, Bolívia, Argentina e Chile. Para conectar lugares tão distantes e diferentes, os Incas construíram uma impressionante rede de caminhos, centros administrativos e sistemas de comunicação. Tudo isso funcionava de maneira integrada, mesmo diante das enormes distâncias e das dificuldades impostas pela Cordilheira dos Andes.
A chegada dos espanhóis, não significou apenas a mudança de quem controlava o território, mas foi também o encontro, muitas vezes violento, entre duas culturas e duas maneiras muito diferentes de compreender o mundo. De um lado, a sociedade espanhola, profundamente ligada ao catolicismo; de outro, as culturas indígenas, com suas próprias crenças, rituais e formas de se relacionar com a natureza, os ancestrais e o mundo espiritual.
Com a conquista, os espanhóis passaram a impor a religião católica e a combater as práticas religiosas indígenas. Muitas huacas, lugares ou objetos considerados sagrados, foram destruídas ou transformadas. Também foram perseguidos os mallquis, corpos preservados de ancestrais importantes, assim como os cultos comunitários dedicados aos antepassados.
Esse processo ficou conhecido como “Extirpação de Idolatrias” e teve consequências profundas para as culturas indígenas. Não se tratava simplesmente de destruir templos ou objetos religiosos, mas de tentar interromper costumes, crenças e tradições que faziam parte da identidade e da memória desses povos.
É por isso que conhecer essa história muda um pouco a maneira como enxergamos Cusco. Quando caminhamos pela cidade e admiramos suas antigas construções, percebemos que aquelas pedras carregam muito mais do que beleza arquitetônica. Elas sobreviveram a guerras, à conquista, à destruição e às transformações que vieram depois.
É justamente essa mistura de tempos que torna Cusco tão fascinante. Em uma mesma rua podemos encontrar uma parede de pedra perfeitamente encaixada pelos Incas, uma igreja construída durante o período colonial e, ao redor delas, uma cidade moderna, viva e movimentada. O passado não está separado do presente: ele continua fazendo parte da paisagem e da identidade de Cusco.
Visitar a cidade, portanto, é muito mais do que conhecer uma antiga capital inca. É caminhar
por um lugar onde diferentes capítulos da história do Peru permanecem lado a lado.
Cusco é uma cidade em que o passado continua presente — nas pedras, nas construções,
nas tradições e, principalmente, na memória de seus povos.













