CULTURA
NA eSTRADA

Deserto de Atacama
Chile

A Magia do Atacama
A região do Atacama se estende pelo norte do Chile até a fronteira com o Peru e possui uma história marcada pela presença de diferentes povos originários. Antes da chegada dos europeus, o território era habitado principalmente pelos atacameños, também conhecidos como Lickan-Antay, além de povos Aymara. A região fez parte da Bolívia até a Guerra do Pacífico, quando passou ao domínio chileno.
Os atacameños falavam o kunza, uma língua própria que significa “nossa”. O nome Atacama teria origem na palavra kunza Atchcamar, relacionada à ideia de terra. A expressão pode ser interpretada como “cabeça do país”, e a forma como era pronunciada em espanhol teria dado origem ao nome Atacama.
A partir de 1536, depois de um período de domínio do Império Inca, a região passou a ser ocupada pelos espanhóis. A colonização provocou um processo gradual de enfraquecimento das comunidades originárias e de sua cultura. Durante o período colonial, o uso do espanhol foi imposto de maneira violenta aos atacameños, que podiam sofrer multas e castigos físicos por falar kunza.

Vulcão Licancabur
No início do século XX, o kunza já era considerado uma língua extinta. Como nunca havia sido registrada de forma escrita, sua reconstrução tornou-se um grande desafio. Ainda assim, parte desse conhecimento sobreviveu na memória das comunidades, presente em cantos, rituais, mitos e nos próprios nomes de lugares da região.
Em 2005, foi publicado o primeiro dicionário Espanhol-Kunza/Kunza-Espanhol, reunindo cerca de 900 palavras que conseguiram sobreviver ao longo do tempo. Esse trabalho representa uma importante iniciativa de preservação e resgate da memória de um povo que, apesar de séculos de colonização e apagamento cultural, continua presente no território do Atacama.
Como chegar
O aeroporto mais próximo fica na cidade de Calama - Aeroporto El Loa Calama. Do aeroporto até San Pedro de Atacama são cerca de 100 km, aproximadamente 1 hora e meia de viagem. Pode ser contratado o serviço de transfer do aeroporto até San Pedro de Atacama diretamente no local, com as agências de turismo disponíveis no aeroporto, ou antecipadamente pela internet. A contratação online pode ser uma opção mais prática e segura, especialmente para garantir o transporte na chegada.
Minha experiência:
Fiz o trajeto da Argentina até o Deserto do Atacama de ônibus, partindo de Purmamarca. São cerca de 12 horas de viagem, mas daquelas em que o próprio caminho faz parte da experiência. As paisagens ao longo do percurso são deslumbrantes e tornam a jornada ainda mais especial.
Purmamarca é uma das principais portas de acesso a San Pedro de Atacama pela Ruta 52, que atravessa a Puna, a mais de 3.000 metros de altitude, seguindo em direção à Cordilheira dos Andes. No caminho, a estrada passa pelas impressionantes Salinas Grandes e pela região da Reserva Nacional Los Flamencos, até chegar à fronteira com o Chile, no Paso de Jama.
Comprei a passagem ainda na Argentina, em Salta, e fiz o trajeto com a Pullman Bus. Foi uma ótima experiência, e recomendo para quem deseja conhecer essa região de uma maneira diferente e aproveitar as paisagens incríveis que a viagem proporciona.


San Pedro de Atacama
O município San Pedro de Atacama é um oásis no meio do deserto, tem pouco mais de 5.000 habitantes e está localizado a 2.500 metros acima do nível do mar, na Região de Antofagasta do Chile.
Para o leste, San Pedro é delimitado por uma filial vulcânica da Cordilheira dos Andes. Os vulcões variam em forma e altura, elevando-se entre 4.500 metros e 6.000 metros acima do nível do mar. Os mais impressionantes são Licancabur, Lascar e Sairecabur.
Acima do oásis e da planície de sal, entre 4.000 e 4.400 metros acima do nível do mar é o Altiplano, ou Puna, planalto de suaves planícies abertas, formada pela erosão de montanhas e vulcões, repleta de zonas húmidas, lagos, lagos de sal, planícies e gêysers.
A maior área geotérmica da América Latina, El Tatio, está no Altiplano e localizada a 95 km de San Pedro, a 4.200 metros acima do nível do mar. El Tatio cobre 10 km2 e dispõe de cerca de 80 gêysers. As erupções podem exceder 10 metros, com a água atingindo uma temperatura média de 86º C, enquanto no subsolo foi registrado 240º C. As temperaturas no deserto variam entre 0 °C à noite a 40 °C durante o dia.
Passeios turísticos

Geyser Del Tatio
São muitas as opções de passeios turísticos pelo Atacama, que podem ser contratados diretamente com as agências locais, quando você chegar a San Pedro, ou reservados pela internet, com antecedência.
Recomendo a Deyd no Atacama. Ela é brasileira, muito simpática e prestativa, e pode ajudar a montar um roteiro de acordo com os seus interesses, o tempo disponível e o seu orçamento. A reserva pode ser feita antecipadamente, mediante o pagamento de 5% do valor total via Pix.
Se o orçamento permitir, vale a pena fazer o maior número possível de passeios oferecidos pelas agências. Cada um revela uma paisagem diferente e surpreendente do deserto. Ainda assim, alguns são simplesmente imperdíveis, com cenários de tirar o fôlego.
O Deserto do Atacama é, sem dúvida, um daqueles lugares que ficam na memória. Pela grandiosidade das paisagens, pelas cores, pelo silêncio e pela sensação de estar em um cenário completamente diferente de tudo o que conhecemos, é um destino que merece estar na sua lista de viagens.

O Atacama vai acabar?
Uma das coisas que mais me chamou a atenção durante a viagem pelo Atacama foi descobrir que, por trás de toda aquela paisagem impressionante, existe uma realidade que muitas vezes passa despercebida aos olhos de quem visita a região.
O Salar de Atacama, com mais de 1.200 quilômetros quadrados, é uma das principais reservas de lítio do mundo. A região é explorada por grandes empresas, entre elas a SQM e a Albemarle. O acesso à área onde estão instaladas as operações de mineração é restrito aos visitantes.
A extração do lítio é feita a partir da salmoura encontrada no subsolo do salar. Ela é bombeada para grandes piscinas e deixada para evaporar durante meses. O que sobra desse processo é posteriormente transformado em compostos de lítio, utilizados principalmente na fabricação das baterias de íon-lítio.
E é justamente aí que surge uma das maiores preocupações: a água.
Estamos falando de uma das regiões mais áridas do planeta, onde a água é um recurso extremamente precioso. Segundo dados citados pelo Brasil de Fato, para produzir uma tonelada de lítio nos salares do Atacama são evaporadas cerca de 2 mil toneladas de água. O impacto sobre a disponibilidade da água e sobre as reservas subterrâneas preocupa pesquisadores, comunidades locais e pessoas que vivem e trabalham na região.
A questão também envolve os povos originários que vivem no território. A propriedade e o uso do salar são atravessados por disputas entre o Estado, empresas privadas e comunidades indígenas, que dependem daquele ambiente para sua sobrevivência e para a manutenção de seus modos de vida. A mineração do lítio, portanto, não é apenas uma questão econômica: envolve território, água, cultura e o futuro dessas comunidades.
Durante os passeios pelo deserto, uma frase que ouvi várias vezes dos guias ficou na minha cabeça:
“O Atacama vai acabar.”
É uma frase forte e talvez até assustadora, mas depois de conhecer um pouco melhor essa realidade, ela passa a fazer sentido. O que para nós, viajantes, parece uma paisagem infinita e intocável é, na verdade, um território extremamente delicado, onde cada gota de água tem um valor enorme.
O lítio é hoje um mineral fundamental para a fabricação de baterias e para a chamada transição energética. A busca por ele cresce justamente por causa dos carros elétricos, dos sistemas de armazenamento de energia e de outras tecnologias consideradas importantes para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis. Mas fica uma pergunta difícil: de que adianta buscar uma energia mais limpa se, para produzi-la, colocamos em risco territórios, água e comunidades?
Viajar também é isso. É se encantar com os lugares, mas tentar enxergar o que existe por trás da paisagem. O Atacama é de uma beleza indescritível, mas é também um território vivo, habitado e cheio de histórias. E talvez conhecer essas histórias seja uma das formas de olhar para aquele deserto com ainda mais respeito.














